quarta-feira, abril 05, 2006

Easy rider

* continuação de Sem RG

Eu costumava pensar até há pouco tempo que amores de verdade duravam para sempre. Hoje sei que eternidade é qualidade de uns poucos amores, e não característica intrínseca. Ao contrário do que eu também imaginava, nem todos os amores se transformam em outro tipo de sentimento, amor de outra espécie. Atualmente, duvido até da capacidade dele se transformar no que as pessoas costumam chamar de seu avesso – o ódio.

Não me lembro de ter odiado alguém que já houvesse amado, ao menos não de forma perene – cultivar um ódio como quem cultiva ou guarda um amor. E o contrário também vale: nunca acabei por amar alguém que tivesse odiado, embora me confesse extremamente principiante nas técnicas de odiar. Estou evitando os exageros, principalmente os de emoções.

Amor acaba, sim. Bobagem achar que não. E isso, pra mim, é sempre triste. De uma tristeza infinita enquanto dura, de uma dor profunda que chega a ser física. E diferente a cada vez, exatamente como o amor se apresenta novo a cada experiência.

O amor acaba de ter uma parada cardíaca.

Hoje sonhei que passava por você de ônibus. Eu dentro de um, você em outro, nos cruzamos na canaleta do expresso. Cada um numa direção. Eu te olhei e não vi nada nem senti nada. Teus olhos vazios: sem perguntas, súplicas nem dúvidas. Você passava, eu passava, nos reconhecemos e seguimos, nenhum aceno, nem mesmo um cumprimento com a cabeça. Passou.

Um amor desses mortais pode levar tempo pra fenecer. Pode gastar tempos em cirurgias, inúmeras transfusões de sangue, sobreviver meses na UTI. E os desígnios nos são desconhecidos, não se sabe quem é que decide a vida/sobrevida de um amor, porque mesmo que racionalmente tudo se acabe, o sentimento pode ficar lá, em estado vegetativo, por tempo indeterminado. O amor é o único caso em que a morte cerebral não significa nada. E, esperando que tudo aconteça, a gente fica lá. Permanece no limbo, segurando a mão inerte ou observando pelo vidro. Caixas e caixas de kleenex.


Dentro da gente um coração que não pára, por mais que não caiba mais no peito vazio. Parece que bateram todos os órgãos num liquidificador, e a casquinha que sobra mal consegue conter o conteúdo. Alguém me anestesiou. A exaustão é tanta que já não se consegue nem chorar. Não há diálogo possível, só a espera – ou adiamento – do inevitável. Dor. De dorzinha em dorzinha, fenecer, desbotar até morrer.

Ou então um dia você acorda, olha para o lado e pensa, sem dor, só pesar: “o que é mesmo que estou fazendo aqui?”. Olha para o objeto de seu amor – no meio de um filme no cinema, durante o jantar – e subitamente o vê com outros olhos. Como apenas uma pessoa comum. E não consegue mais deixar de ver os defeitos irritantes, a mania boba ou aquela grande falha de caráter que antes estava encoberta por um véu cor de rosa. E se assusta. Como fui me enganar assim?

O amor acaba de sofrer uma segunda parada cardíaca.

Por mais que você tente recuperar o encantamento de outrora, já era, it’s gone. Já não há máscaras e fazer o balanço do “vale a pena” é inevitável, mesmo quando se sabe exatamente o resultado. E o gosto do outro, a vontade do outro, o querer do outro, sempre tão importantes, começam a entrar em conflito com o nosso próprio querer. E começa uma luta com a gente mesmo.

Massagem cardíaca, desfibriladores, epinefrina.

Já não penso mais que dar adeus a uma relação signifique a frustração de todos os planos e projetos não realizados, dos quais se tem de abrir mão. Sigo, mesmo após o fim, acreditando que todas as promessas eram verdadeiras, todos os desejos, reais, afinal. Tudo o que foi dito era realidade no momento em que as palavras foram articuladas, ainda que só em idéias e vontades. Recuso-me a pensar que o que foi dito era mentira. Prefiro acreditar na efemeridade dos sentimentos.

Porque não te amo mais nesse exato momento não significa que nunca te amei. Porque não nos casamos não significa que nossa vontade de dividir, de ter uma vida juntos pela eternidade do nosso sempre, não tenha sido real. Prefiro acreditar que nossas juras e promessas apenas tiveram seu prazo de validade expirado. Dói menos, pelo menos em mim, e me faz sentir mais livre.

Dói mais sempre pra quem fica. Quem parte fez o balanço, quem vai sabe exatamente – ou ao menos tem idéia – do que estava acontecendo e porque está indo. Quem parte já pesou e conferiu os resultados. Quem deixa já fez as malas e, por mais que doa, já está preparado.

Quem fica não sabe o que fazer. Chora comendo pastel, se descabela no ponto do ônibus, tem acessos de raiva, atira coisas pela janela, alterna drama, silêncio, gritos, compreensão resignada e inconformismo histérico. Foi pego de surpresa, todos os planos ainda nas mãos, no anular esquerdo o comprometimento único arde agora sem brilho. Todos os planos ainda por serem realizados, todos os sonhos ainda morando na cabeça. Só o objeto de seu amor não está mais lá. Como um luto de alguém que não morreu. Como pôde fazer isso comigo?

Ainda ontem minhas mãos pertenciam às suas; ainda ontem meu corpo era tua morada. Hoje, dentro de mim um deserto.

Quem vai parece saber mais de si. Quem fica se perde um pouco. Ambos saem da sala pessoas diferentes.

Sentada no banco de frente para mim, a moça no ônibus chora. Não sei se perdeu alguém, se um amor se acabou ou se cruzou com alguém na canaleta. Se deixou ou foi deixada, se perdeu ou perdeu-se. Gostaria de conseguir consola-la, mas sei que é impossível. Cada um tem seu tempo de luto. Não sei em que direção estamos indo e quero muito acreditar que isso não importa.

Pois bem, amores acabam, senhoras e senhores. E talvez isso nem sempre seja ruim.

11 comentários:

Maria Helena disse...

Lindo, com os olhos cheio de lágrimas, só posso dizer que: "foi infinito enquanto durou"... Tudo nessa vida tem um começo, um meio e um fim, quem sabe o fim de um amor não seja o inicio de uma nova vida? Amo vc, não preciso repetir... mesmo distante, vc está sempre nos meus pensamentos, pq além do sangue que nos une, vc é minha irmã de alma, de amor, a irmã em quem eu me espelho, a mulher maravilhosa que eu gostaria de ser... Saudades, mas meu coração me diz que vc está bem... Qualquer coisa, vc sabe onde me encontrar, meu colo e meu amor estarão eternamente disponiveis...

Priscilla Foggiato disse...

Tô bem, tô bem, isso é constatação de outros tempos... De quando a gente morava junto, ainda!
Beijo, que bom ter você por aqui!
:)

Giu! disse...

...
Passada. Nem tem palavra, você tirou todas. Cacete. Só um belo palavrão. :*

Will disse...

"O amor é o único caso em que a morte cerebral não significa nada."

"O coração, se pudesse pensar, pararia" Fernando Pessoa

Paralelos. Eu fico até feliz em ler o texto e não me sentir mal. O amor, de fato, acabou. É bom te ler novamente. Beijos!

João Alceu disse...

Ainda ontem minhas mãos pertenciam às suas; ainda ontem meu corpo era tua morada. Hoje, dentro de mim um deserto.
---
Esta tua frase é uma cacetada!
Gostei do teu texto por me vi nele. Sou, como você, quem ficou na estação do trem olhando quem partiu. Dolorido, questionando o que aconteceu!
Eu te vejo porque te acho bonita! Você me vê porque estou por perto.
Beijos
João Alceu
|PS: continuo achando que vc tem que continuar escrevendo.

Matias disse...

Teu texto não doeu. É terrivelmente comum.
A única pessoa que eu cruzei na canaleta do expresso foi você. Isso diz muito de mim. E de você.
Quase escrevo "canaleta DE expresso". Imaginei tudo que você imaginou que imaginei, e mais um pouco.

Camila disse...

Cheguei aqui pelo blog de uma amiga. Seu texto é sensacional.

Matias disse...

Ah, o comum é a situação do texto!
Os textos da Pris jamais serão comuns. Somente ótimos.

Letícia disse...

A segunda parada cardíaca, quando você se pergunta: “o que é mesmo que estou fazendo aqui?” já é a racionalização do sentimento que se dizia, ou que era, amor.
Neste momento a dor se transmuta, mas não sei se fica menor. Já tentei racionalizar para sofrer menos, mas acho que não é possível.
Beijos minha linda, espero que realmente esteja bem!

tangerinas incendiárias disse...

a eternidade sempre fala de quem nos somos nunca de quem vamos ser.

borges diz que podemos conceber dez dias, nunca dez anos, acho ele um exagerado, em dez dias não me reconheço num espelho...

Marcia disse...

Muito bom!!! Adorei seu texto, sensacional eu diria. Caí de paraquedas por aqui... Se deixar venho de vez em qdo...