quarta-feira, abril 26, 2006

Abstracionismos

Gostaria de finalmente compreender da forma exata – ou errada de uma vez - toda vez que você diz que me ama. Quando você diz, como se fosse uma rede para o meu salto, como quem dá segurança ao outro que escala a montanha. Como o revisor que corrige meu erro antes da impressão. Gostaria de abarcar essa compreensão como se você fosse sempre estar lá, sem nenhuma dúvida. Mas a verdade é que você nunca está.

Quem está lá é só a sombra.

Do meu amor, você é o Papai Noel, o coelho da Páscoa, o duende, a fada madrinha. Você é o sonho, o papel laminado brincando de espelho, o brilho do metal que não é ouro, a pedra falsa reluzente no anel. O anel que nunca foi dado. A promessa que nunca se cumpre, a farsa bonita, a beautiful lie. O inatingível, o tangível tão perto das mãos, mas que não alcanço nem com banquinho. A realidade virtual fora do alcance da vista, as paralelas que se encontram no horizonte mas que nunca se tocam. Todas as esperanças e expectativas e nenhuma realidade.

Teu amor é a conspiração perfeita, a encenação de tudo o que eu sempre quis, o filme do meu romance ideal, o sonho cor de rosa da menina. Tão perto, tão longe: a realidade que não consigo alcançar logo ali, atrás daquele vidro. Vitrine. Basta abrir aquela porta mas não encontro a chave, basta beber daquele líquido mágico – coma-me, beba-me - basta ficar do tamanho certo para alcançar. Mas eu nunca acerto a receita.

Não importa o quanto caminhamos juntos, o quanto planejamos, o quanto desenhamos; tudo é castelo no ar, areia e vento, névoa e sombra. Tudo são diálogos sem resposta, crases que não deveriam existir, silêncios que não deveriam constranger. Nesse vale sem rede de segurança não ecoam os gritos dos trapezistas.

Eu só queria que com cada “eu gosto de você” viessem pacotes de realidade palpável, em ações, em atitudes. O abismo que sinto quando te abraço, o frio na barriga, a náusea das desconfianças e dos medos, não, isso eu não quero mais. E eu queria que eles fossem para mais longe a cada “eu te amo”. Mas eles não vão. Os medos e as dúvidas se enrolam nas mangas, descem garganta abaixo e me saciam de maus pensamentos. Por isso ando emagrecendo, mas você não percebe.

As memórias, colcha de retalhos. Fragmentos de bons momentos costurados com linhas grossas demais. Impossível saber se a coberta será suficiente, se aquecerá a contento. Sei pregar botões, tricotar malhas e abrir casas. Dos remendos, já estou farta.

7 comentários:

Letícia disse...

Lindo, porém triste. Vc está bem?

tangerinas incendiárias disse...

nós, as impossibilidades...

de longe, mas mantendo os olhos sobre tuas palavras :)
cahê

Anônimo disse...

sinceramente, esse cara não merece tudo isso!
você é muito melhor que isso!
LU

Bernardo Foggiato disse...

olá, vc não me conhece, eu acho, mas eu te achei por engano enquanto matava trabalho e procurava por coisas relacionadas ao meu sobrenome...
Achei bacana o seu Blog, também tenho um, gosto de escrever nele , por emórias de viagem e talz... Mas anyway, passando aqui só para dar um alô .
Ahh tbem sou de Curitiba

Marcia disse...

Mais um texto muito bom. Triste, profundo, verdadeiro. Me sinto um pouco assim... Até mais!

Marcia disse...

Mais um texto muito bom. Triste, profundo, verdadeiro. Me sinto um pouco assim... Até mais!

Angela Smaniotto disse...

talvez seja a hora de você aprender a dar pontos com linha cirúrgica e perceber que quem mais precisa disso é seu coração.