sábado, abril 29, 2006

The Sexy Name Decoder


Playful Ravishing Individual Skillfully Conferring Intense Loving and Lustful Affection


:)

quarta-feira, abril 26, 2006

Abstracionismos

Gostaria de finalmente compreender da forma exata – ou errada de uma vez - toda vez que você diz que me ama. Quando você diz, como se fosse uma rede para o meu salto, como quem dá segurança ao outro que escala a montanha. Como o revisor que corrige meu erro antes da impressão. Gostaria de abarcar essa compreensão como se você fosse sempre estar lá, sem nenhuma dúvida. Mas a verdade é que você nunca está.

Quem está lá é só a sombra.

Do meu amor, você é o Papai Noel, o coelho da Páscoa, o duende, a fada madrinha. Você é o sonho, o papel laminado brincando de espelho, o brilho do metal que não é ouro, a pedra falsa reluzente no anel. O anel que nunca foi dado. A promessa que nunca se cumpre, a farsa bonita, a beautiful lie. O inatingível, o tangível tão perto das mãos, mas que não alcanço nem com banquinho. A realidade virtual fora do alcance da vista, as paralelas que se encontram no horizonte mas que nunca se tocam. Todas as esperanças e expectativas e nenhuma realidade.

Teu amor é a conspiração perfeita, a encenação de tudo o que eu sempre quis, o filme do meu romance ideal, o sonho cor de rosa da menina. Tão perto, tão longe: a realidade que não consigo alcançar logo ali, atrás daquele vidro. Vitrine. Basta abrir aquela porta mas não encontro a chave, basta beber daquele líquido mágico – coma-me, beba-me - basta ficar do tamanho certo para alcançar. Mas eu nunca acerto a receita.

Não importa o quanto caminhamos juntos, o quanto planejamos, o quanto desenhamos; tudo é castelo no ar, areia e vento, névoa e sombra. Tudo são diálogos sem resposta, crases que não deveriam existir, silêncios que não deveriam constranger. Nesse vale sem rede de segurança não ecoam os gritos dos trapezistas.

Eu só queria que com cada “eu gosto de você” viessem pacotes de realidade palpável, em ações, em atitudes. O abismo que sinto quando te abraço, o frio na barriga, a náusea das desconfianças e dos medos, não, isso eu não quero mais. E eu queria que eles fossem para mais longe a cada “eu te amo”. Mas eles não vão. Os medos e as dúvidas se enrolam nas mangas, descem garganta abaixo e me saciam de maus pensamentos. Por isso ando emagrecendo, mas você não percebe.

As memórias, colcha de retalhos. Fragmentos de bons momentos costurados com linhas grossas demais. Impossível saber se a coberta será suficiente, se aquecerá a contento. Sei pregar botões, tricotar malhas e abrir casas. Dos remendos, já estou farta.

sábado, abril 22, 2006

Pseudo carta para alguém que nunca vem aqui

Se é que te interessa, não tenho nenhum orgulho do mal que te fiz. Não me vanglorio de assombrar tua vida como um passado irreal, uma morta-viva que te incomoda, nem vejo como glória o sofrimento que te impus com minhas ações – bem pensadas ou impensadas. Se é que faz diferença saber, não gosto de saber que você sofreu.

Claro, ninguém gosta de fazer ninguém sofrer. E se eu pudesse, se eu tivesse tido tempo suficiente, certamente faria desse fim algo mais digno do que foi. Mas não tive tempo. A vida não acontece em capítulos, os fatos não esperam estarmos prontos para então acontecerem. Não preciso descrever as cenas dessa ópera. Continua a haver mais drama em minha vida e na das pessoas que me cercam do que eu gostaria que houvesse. Do que eu gostaria de admitir.

Se fosse para fazer um réquiem desse amor, ele não seria triste. E tantas vezes te disse isso: nossa história não foi ruim, foi bela. E se acabou mal, seja por vileza e incompreensão de minha parte, seja por exagero ou omissão da tua, é porque acabou. Fosse para acabar bem, não terminaria.

Desconheço todas as teorias que você deve guardar sobre isso. Desconheço metade das minhas, porque se penso sobre o que aconteceu, penso hoje e atrasado. Talvez me arrependa de coisas, talvez tenha certeza de outras tantas – a verdade é que o tempo se encarrega de esmaecer as tintas e hoje os vermelhos não parecem mais tão carregados.

Ficaram muitos sorrisos, sabe? Muitos sorrisos, mais que lágrimas. Mais leveza do que mágoas. O que de mais grave me bate é a sensação recorrente que eu tinha, de estar sendo exatamente o que eu queria ser, de estar no lugar certo, na hora certa. O medo de nunca mais vir a sentir isso.

Não que você se importe com qualquer dessas palavras. Não que isso seja um mea culpa. Talvez eu seja mesmo pretensiosa de pensar que causei algum dano, alguma marca, para bom ou ruim. Mas escrever é meu meio de tanta coisa – de fuga, de drama, de ficcionar, de realizar o que não posso – que me permito essa violação e esse crime sem adicionar essas palavras ao meu rol de culpas.

Não tenho mais medo de te encontrar, não tenho mais raiva ou ressentimento pelas interpretações furiosas nos últimos palcos em que nos encontramos. Tenho hoje uma consciencia muito maior do que você é. Uma consciência inversamente proporcional a que tenho de mim: a cada momento me desconheço.

Não temo mais teu riso de escárnio ou tua espera pela vingança. Estou entregue à vida e muito pouca coisa me importa. Sei que esses sentimentos não me pertencem, como nenhum outro pertenceu ou pertencerá. Nada possuo, nem mesmo os dedos dos quais me roubam os anéis diariamente. Nem tenho impresso os álbuns de memórias. Mas levo em mim, engano ou certeza que disperdiço, a sensação de que tempo dividido foi de uma realidade tranqüila e desejada, desfrutada da melhor forma que pudemos.

Levarei as lembranças sempre comigo, embora elas não me pertençam. Ficarão na biblioteca de memórias do mundo, a quem quiser consultá-las. Se são reais, se imparciais ou não, pouco importa: seu valor é outro. Elas me ajudarão sempre a escrever uma das minhas versões da história do mundo.

sexta-feira, abril 14, 2006

Do elo

De si, sentia apenas os pulsos e os tornozelos, circundados por pulseiras de aço. Não tão apertadas que machucassem, não tão soltas que se permitissem desvencilhar. Tinham um brilho fosco, exatamente como o anel que levava no anular esquerdo. Estanho.

Sentia os cílios longos baterem contra a lente dos óculos escuros, cuja armação eventualmente servia de prateleira às lágrimas que escorriam involuntariamente. Mas só às vezes.

Podia mover-se quase livremente. Andava pelas ruas como se nada houvesse, mestre de seu próprio cativeiro, seqüestrador e seqüestrado em plena Síndrome de Estocolmo. Era isso o que o outro desejava e o que desejava do outro: a sensação ilusória de poder mover-se livremente embora estivessem fortemente atados.

Os elos das correntes, em forma de coração, ainda assim eram elos. Eles, elos. Coração engatado em coração engatado em coração engatado no pulso. No tornozelo, atrapalhando os passos. As correntes invisíveis que arrastavam eram os próprios fantasmas.

No peito, o músculo cardíaco ileso, batendo regular. O coração intacto, trancado numa cela de aço. Intocado, puro. Cinto de castidade. Engolira a chave. Nunca mais.

No exato instante em que pensava “nunca mais”, olhos fechados, sentiu um par de luvas jogar longe os óculos escuros, esbofeteando sua face, incitando ao duelo.

quarta-feira, abril 05, 2006

Easy rider

* continuação de Sem RG

Eu costumava pensar até há pouco tempo que amores de verdade duravam para sempre. Hoje sei que eternidade é qualidade de uns poucos amores, e não característica intrínseca. Ao contrário do que eu também imaginava, nem todos os amores se transformam em outro tipo de sentimento, amor de outra espécie. Atualmente, duvido até da capacidade dele se transformar no que as pessoas costumam chamar de seu avesso – o ódio.

Não me lembro de ter odiado alguém que já houvesse amado, ao menos não de forma perene – cultivar um ódio como quem cultiva ou guarda um amor. E o contrário também vale: nunca acabei por amar alguém que tivesse odiado, embora me confesse extremamente principiante nas técnicas de odiar. Estou evitando os exageros, principalmente os de emoções.

Amor acaba, sim. Bobagem achar que não. E isso, pra mim, é sempre triste. De uma tristeza infinita enquanto dura, de uma dor profunda que chega a ser física. E diferente a cada vez, exatamente como o amor se apresenta novo a cada experiência.

O amor acaba de ter uma parada cardíaca.

Hoje sonhei que passava por você de ônibus. Eu dentro de um, você em outro, nos cruzamos na canaleta do expresso. Cada um numa direção. Eu te olhei e não vi nada nem senti nada. Teus olhos vazios: sem perguntas, súplicas nem dúvidas. Você passava, eu passava, nos reconhecemos e seguimos, nenhum aceno, nem mesmo um cumprimento com a cabeça. Passou.

Um amor desses mortais pode levar tempo pra fenecer. Pode gastar tempos em cirurgias, inúmeras transfusões de sangue, sobreviver meses na UTI. E os desígnios nos são desconhecidos, não se sabe quem é que decide a vida/sobrevida de um amor, porque mesmo que racionalmente tudo se acabe, o sentimento pode ficar lá, em estado vegetativo, por tempo indeterminado. O amor é o único caso em que a morte cerebral não significa nada. E, esperando que tudo aconteça, a gente fica lá. Permanece no limbo, segurando a mão inerte ou observando pelo vidro. Caixas e caixas de kleenex.


Dentro da gente um coração que não pára, por mais que não caiba mais no peito vazio. Parece que bateram todos os órgãos num liquidificador, e a casquinha que sobra mal consegue conter o conteúdo. Alguém me anestesiou. A exaustão é tanta que já não se consegue nem chorar. Não há diálogo possível, só a espera – ou adiamento – do inevitável. Dor. De dorzinha em dorzinha, fenecer, desbotar até morrer.

Ou então um dia você acorda, olha para o lado e pensa, sem dor, só pesar: “o que é mesmo que estou fazendo aqui?”. Olha para o objeto de seu amor – no meio de um filme no cinema, durante o jantar – e subitamente o vê com outros olhos. Como apenas uma pessoa comum. E não consegue mais deixar de ver os defeitos irritantes, a mania boba ou aquela grande falha de caráter que antes estava encoberta por um véu cor de rosa. E se assusta. Como fui me enganar assim?

O amor acaba de sofrer uma segunda parada cardíaca.

Por mais que você tente recuperar o encantamento de outrora, já era, it’s gone. Já não há máscaras e fazer o balanço do “vale a pena” é inevitável, mesmo quando se sabe exatamente o resultado. E o gosto do outro, a vontade do outro, o querer do outro, sempre tão importantes, começam a entrar em conflito com o nosso próprio querer. E começa uma luta com a gente mesmo.

Massagem cardíaca, desfibriladores, epinefrina.

Já não penso mais que dar adeus a uma relação signifique a frustração de todos os planos e projetos não realizados, dos quais se tem de abrir mão. Sigo, mesmo após o fim, acreditando que todas as promessas eram verdadeiras, todos os desejos, reais, afinal. Tudo o que foi dito era realidade no momento em que as palavras foram articuladas, ainda que só em idéias e vontades. Recuso-me a pensar que o que foi dito era mentira. Prefiro acreditar na efemeridade dos sentimentos.

Porque não te amo mais nesse exato momento não significa que nunca te amei. Porque não nos casamos não significa que nossa vontade de dividir, de ter uma vida juntos pela eternidade do nosso sempre, não tenha sido real. Prefiro acreditar que nossas juras e promessas apenas tiveram seu prazo de validade expirado. Dói menos, pelo menos em mim, e me faz sentir mais livre.

Dói mais sempre pra quem fica. Quem parte fez o balanço, quem vai sabe exatamente – ou ao menos tem idéia – do que estava acontecendo e porque está indo. Quem parte já pesou e conferiu os resultados. Quem deixa já fez as malas e, por mais que doa, já está preparado.

Quem fica não sabe o que fazer. Chora comendo pastel, se descabela no ponto do ônibus, tem acessos de raiva, atira coisas pela janela, alterna drama, silêncio, gritos, compreensão resignada e inconformismo histérico. Foi pego de surpresa, todos os planos ainda nas mãos, no anular esquerdo o comprometimento único arde agora sem brilho. Todos os planos ainda por serem realizados, todos os sonhos ainda morando na cabeça. Só o objeto de seu amor não está mais lá. Como um luto de alguém que não morreu. Como pôde fazer isso comigo?

Ainda ontem minhas mãos pertenciam às suas; ainda ontem meu corpo era tua morada. Hoje, dentro de mim um deserto.

Quem vai parece saber mais de si. Quem fica se perde um pouco. Ambos saem da sala pessoas diferentes.

Sentada no banco de frente para mim, a moça no ônibus chora. Não sei se perdeu alguém, se um amor se acabou ou se cruzou com alguém na canaleta. Se deixou ou foi deixada, se perdeu ou perdeu-se. Gostaria de conseguir consola-la, mas sei que é impossível. Cada um tem seu tempo de luto. Não sei em que direção estamos indo e quero muito acreditar que isso não importa.

Pois bem, amores acabam, senhoras e senhores. E talvez isso nem sempre seja ruim.

sábado, abril 01, 2006

Quadro de recados

Lá fora, quando eu vinha chegando de ônibus, estava um céu azul belíssimo. E eu me senti um pouco menos triste, um quase quase alegre, porque talvez houvesse uma possibilidade de que eu conseguisse me descolar do que sinto e não me identificasse mais com a emoção; porque eu não chorava já havia algumas horas. O dia estava bonito e eu quase sorri pensando na possibilidade de me enganar e acreditar que talvez assim é que seja certo, que esteja certo, e que talvez eu já tenha chorado tudo.

Horas e um litro e meio de água depois, ainda sem comer, o nó na garganta veio com fúria leonina quando, ao ler os quadrinhos da Folha, me peguei repetindo um gesto muito característico teu. Um jeito de rir que não é meu, que sai abafadinho da garganta e não explode em riso, como eu faria do meu jeito. Um riso de quem acha a coisa só engraçadinha e que eu nem sei imitar voluntariamente. Uma daquelas peças que o inconsciente nos prega: o mimetismo natural que acontece entre casais que se amam.