quarta-feira, março 29, 2006

Sem RG

Quatro anos depois, ao reencontrar aquele que lhe tirou o sorriso do rosto e cujo filho abandonou em terras longínquas, não sentiu o coração disparar nem o chão tremer. A boca não secou, embora tenha pensado que estava um tanto mal vestida para a surpresa. Era uma situação trivial, almoçava acompanhada por um sujeito que pretendia (em vão) beija-la na próxima sessão de cinema, por quem não nutria sentimentos verdadeiros.

O homem-personagem. O homem do apartamento 62, que combinava as samba-canções com o lençol e mentia que jogava xadrez com peças de vidro. O cafajeste. O homem das taças de vinho de pé preto e das toalhas Tok & Stock, sentado no chão, de calça social e sem sapatos, encostado na parede do apartamento yuppie. O garoto das bússolas que não funcionavam, do pára-quedas sempre aos pés da cama – no qual ela sempre tropeçava.

Observou a ex-ameaça chegando na praça de alimentação. Trazia pela mão um exemplar de fêmea regular – apenas regular – e conservava o mesmo andar de outros tempos, quase manco; o mesmo corte de cabelo arrepiado, a mesma empáfia. A insolência tola de quem conhece pouco de si mesmo. Tentou não julgar a moça, que era bonitinha, até, e que provavelmente lidava melhor com ele, talvez por não conhece-lo tão bem.

Reparou no jeito dele se mover, se havia emagrecido ou engordado e, mais do que tudo, tentou observar sua própria reação diante de alguém por quem havia sofrido tanto. Alguém que não respeitava mapas ou horários, que deixara traumas de celular e uma insegurança que demorou a ser curada. Que a levou ao Prozac e à análise freudiana. O homem dos surtos, da taquicardia e dos frios na barriga permanentes. Que costumava despertar a vontade de sair correndo, literalmente.

Olhou para dentro de si um instante e percebeu que não sentia nada. Não sentia absolutamente nada: carinho, ternura, saudades, raiva, medo. Nunca imaginara que pudesse fazer isso com um amor que parecera tão intenso. Teria sublimado? Quantas armadilhas o inconsciente guarda. Aparentemente não sentia nada. Não faria diferença se ele viesse cumprimentar ou se fingisse que não a viu. Nada. Um nada bem grande.

Tentou ser ainda mais discreta, falar baixo, se movimentar pouco. Não queria ser percebida ou flagrada como se quisesse chamar a atenção. Preferia que ele não a visse. Será que nutriria um ódio desconhecido pelo amor que acabara? Pelo seu amor desprezado, pelo homem que não a quis o suficiente? Pela primeira vez resolveu pensar seriamente se acreditava que amores acabam.

Ou isso – amor acaba - ou foi uma obsessão daquelas bem loucas, de dar medo na Glenn Close de Atração Fatal. Pior: se estivera enganada daquela vez, então o sentimento ainda a rondava e poderia estar prestes a se repetir.

Fosse outra, talvez devesse levantar e bater na mesa, fazer escândalo: por que ela sim, e eu não? Por que nunca me assumiu, nunca mãos dadas comigo no shopping? Ela sabe que você prometeu se casar comigo daqui três anos? Ela sabe quem você é e que essa relação não vai a lugar nenhum? Ela sabe que você a trai? Ela te conhece como eu conhecia? Despejar o pote de mágoas.

Mas não era dada a barracos.

Talvez, se fosse outra, devesse ir lá se apresentar para aproveitar e analisar melhor a moça. Procurar perfil no Orkut, julgá-la não tão bonita ou averiguar a inteligência. Espezinhar a atual situação dele, que voltou a morar com a mãe; todos os trambiques que deram errado. Rir alto da inépcia dele, a falta de caráter que lhe era tão conhecida, e se congratular por ter ido embora a tempo: sabia que era chave de cadeia. Mostrar superioridade.

Não fez nada disso. Não faria sentido, não havia mais nada, nenhum sentimento. Estava vazia, então simplesmente não fez nada. Não era a mulher que interpretaria nenhum desses papéis. Tampouco era qualquer outra. Não fez nada porque não sabia mais quem era, como era ou no que havia se tornado. Não era mais mulher nenhuma.

terça-feira, março 28, 2006

Do demônio e outros amores

Aviso aos navegantes: o texto abaixo não é literatura, mas ao menos meu português é correto.

É extenuante saber que as pessoas insistem em se preocupar com problemas que não lhes concerne, não lhes dizem respeito. Falta aprender aquela liçãozinha básica de que existem dois tipos de problema: o MEU e o SEU.

Cansa minha parca beleza saber que tem gente tão pobre de espírito a ponto de se satisfazer com expectativas de vingança. Gente cujo lema de vida é aquele provérbio "vingança é um prato que se come frio" e blábláblás afins. Que passa mais tempo confabulando sobre o possível fracasso ou a desgraça alheia do que vivendo a própria vida.

Boçalidades (tem palavra mais asquerosa?). "O tempo dirá". Dirá pra quem? Pra você, que está aí no camarote, sua vida passando enquanto espera para ver a minha não dar certo? Torcendo contra? Ah, fala sério, eu vou é ser feliz. Mas isso não é algo facilmente suportável, a felicidade alheia, não é?

"O tempo é o senhor da razão", costumava argumentar um conhecido que vivia bêbado. Ninguém tem de provar nada pra ninguém, as coisas são como são, não importa o que os outros queiram e às vezes nem o que eu quero importa. As coisas são, tudo fica mais fácil com a aceitação. É um peso ser tanto incômodo (ironia, por favor). Pesa mais pra quem?

Quem gasta mais energia, afinal? Quem tem de atravessar a rua pra mudar de calçada ao me ver, quem se satisfaz com pouco esperando o mal alheio, quem vive de ilusão e torcendo pelo fracasso dos outros ou quem ta dando a cara a tapa pra vida?

Vingança é um dos sentimentos mais baixos que eu conheço. Vingança e inveja. E eu já namorei um cara invejoso e vingativo. Pode ter coisa mais mesquinha? E eu ainda achava que ele não tinha problemas sérios de caráter! Que coisa.

segunda-feira, março 20, 2006

All we need is love



Porque meu amor me ilustra de várias maneiras.
Porque esse amor é ilustrado de várias maneiras.
É pra todo mundo ver e saber - e dá pra ver de longe o que ele declara da janela do décimo primeiro andar.



Fotos by Daniel Trezub. Arte by Daniel Trezub.

terça-feira, março 14, 2006

Today is gonna be the day



Não há palavras suficientes para descrever os dias felizes. As noites perfeitas em que até o cobertor é mais fofo. Os registros fotográficos que guardamos na memória, as posições, os movimentos precisos, os sussurros ou gritos; como nos acomodamos pronto e perfeito; os encaixes. Depois, o jeito de acordar. Nos dias felizes repetimos incessantemente nosso amor, reforçamos os votos e pedidos de casamento, descobrimos mal entendidos passados e os esclarecemos. E nossos olhos brilham.

Nos dias felizes valsamos secretamente pelos corredores, ainda um dentro do outro infinitamente, indefinidamente, por mais que as horas custem a passar até o reencontro e os movimentos demorem a se repetir. Nos dias de sol com vento, as lágrimas são de felicidade e certezas e vontade de que esses momentos durem para sempre. Nesses dias não importa o que aconteça. Estamos sempre abraçados.

Ainda que pareçam frágeis, esses momentos são indestrutíveis.

quinta-feira, março 09, 2006

Nothing is gonna change my world* ou A vida de um certo cara aí

Ela chegou para mudar tudo. Toda a concepção da coisa. Tudo o que eu pensava que já estava decidido e cristalizado na minha vida. Tudo o que eu já considerava imutável. E não veio devagar. Chegou trazendo ventos e intensidades, sentimentos que estilhaçavam vidraças e gritavam decisões incertas. Sempre incertas, as decisões, sempre incertas na minha cabeça. Sempre sem saber direito o que eu estava fazendo.

Antes? Ah, antes eu tinha certezas e convicções. Eu achava que sabia que gostava de certas coisas e que tudo já estava pronto e decidido. Era cômodo, tranqüilo. Mas ela cutucava, balançava, me sorria e eu achava lindo, lindo... Ela, sempre cheia de histórias das quais eu tinha medo e ciúmes. Sempre com aventuras loucas que eu desaprovava ou que nunca sequer pensara em viver. Ela: algo que eu não poderia ter.

Não sei quando as histórias começaram a se misturar. Minha história e a dela, nossas histórias, nossa história. Suas palavras entravam por portas que eu desconhecia e me atingiam fundo no coração. Às vezes me seduzindo, às vezes me doendo, despertando um desejo de cuidar daquela fragilidade tão bem escondida. Eu a desejava, é claro, mas ia além. Devorava o que ela escrevia. Adorava sua intensidade.

Eu nunca soube direito o que fazer, só tinha certeza das coisas na minha vida quando estava fazendo errado, entende? Só sabia realmente quando não estava fazendo a minha vontade. Mas eu aceitei. Eu abri a guarda e deixei-a entrar, para bagunçar o que quisesse. Entreguei meu coração ao que viesse, às canções que ela cantava no meu ouvido com aquela voz doce, ao perfume que ficava grudado nas cobertas depois que ela saía. Ainda que eu não soubesse exatamente o que fazer. Ainda que, mesmo que.

Ela veio pra ficar. Ao menos era o que parecia. Um dia trouxe as malas, fez exigências, e eu não consegui fazer nada além de ceder. De dizer que sim. Acho que era isso mesmo que eu queria. Ela veio e ficou. Eu entendi.

Um dia aparece na sua vida alguém que chega pra mudar tudo. Não sei se na vida de todas as pessoas, não sei se sempre. Mas aconteceu na minha e só posso falar por mim. Um dia aparece alguém na sua vida pra mostrar que tudo o que você sabe está errado, e que você tem de recomeçar do zero, fazer tudo de novo diferente.

Tem quem não queira, tem quem não aceite, quem não tenha força nem coragem, e eu respeito isso. É a opção de cada um. Um dia alguém aparece na sua vida como uma segunda chance. Não sei quanto isso vai durar, não sei se vai, só sei que quero e acredito. Parece que agora, a essa altura do campeonato, eu finalmente sei de alguma coisa.

* eu realmente preciso explicar esse asterisco? ;)

P.S.: Não achei que escrever sob a perspectiva de um homem fosse tão difícil - pra escrever, para ser percebido/lido como tal. Por isso o "ela": quem escreve é alguém na primeira pessoa do singular do sexo masculino. Blé. Experimentos, ué.

terça-feira, março 07, 2006

Sobre o Oscar...

As mesmas histórias estão acontecendo o tempo todo. No meu email, no seu carro, na cama de uma terceira pessoa: alguém está amando, esquecendo, perdoando, enganando, se dedicando, escondendo, mentindo, se entregando, desejando, indo, voltando, esperando. Escrevendo. As histórias se repetem e nós nos revezamos nos poucos papéis que nos apresentam.

Se não são diferentes na vida real, quem dirá em Hollywood. Baseado na teoria dos arquétipos no inconsciente coletivo descritos por Carl Jung, Joseph Campbell escreveu O Herói de Mil Faces, livro que, por alguns meses, te faz enquadrar tudo sempre no mesmo contexto com base no herói mitológico. Cada um em seu papel: Shrek, princesa, burro, lobo mau, maçã, King Kong.

Há os que nos fazem rir, há os que fazem gozar. Há histórias que viram livros – romances bons, romances ruins, graphic novels; há as que viram papel de embrulhar peixe. Tem as cujos originais voam com o vento em direção ao lago: memórias para sempre esquecidas, jamais publicadas, perda de tempo. Há as que nos fazem chorar e até as que nos ensinam a aceitar. Não o aceitar de engolir seco, resignado, mas o aceitar de compreender o outro, mesmo que nos escape a compreensão de suas razões. Acolher nos braços sem perguntas.

No fim do ano, você aí pensando em balanços e resoluções. Não questionarei, cada um na sua e, no fim das contas, acho que balanços são válidos, Já cheguei realmente a colocar alguns no papel, contar as minhas histórias.

Contos de fada, realismo fantástico, novela mexicana, cinema mudo, não importa a definição ou o rótulo: você é um montão de histórias, são elas que constroem a sua. E exatamente por isso chega a ser curioso como tantas histórias que se repetem formem indivíduos que não aprendem, como os ratinhos de laboratório que levam choques naquelas experiências.

A história se repete. Você já viu esse filme, a piada é velha. Mas você fica, na esperança de que dessa vez ele mude no final. Até tenta resistir, agir diferente. Mas a história está lá, inexorável, e te espreita. É impressionante como num mundo com tanta gente, existam tantos querendo dirigir e tão poucos para escrever novos roteiros.

Das rimas do amor

De tristeza em tristeza
foi definhando
até morrer.