terça-feira, novembro 28, 2006

Porque não há mais palavras ou Porquê não há mais palavras.

Stoled.

"nossas palavras não têm mais correspondências com o mundo. quando as coisas eram íntegras, sentíamo-nos confiantes de que nossas palavras podiam expressá-las. mas aos pouco elas foram se fragmentando, formando o caos. a partir de então, a cada vez que tentamos falar das coisas que vemos, acabamos por distorcer aquilo que queremos expressar." (paul auster, cidade de vidro)

em tempos de não se expressar por aqui, essa moça escreve PACAS.

segunda-feira, julho 10, 2006

terça-feira, maio 30, 2006

Outras paragens

Esse blog está de férias por tempo indeterminado.
Mas não se preocupe. Tenho certeza absoluta de que você ainda vai ouvir falar de mim.
See ya around e obrigada pela presença ;)

quarta-feira, maio 17, 2006

As verdades maiores

Ele me segurou pela nuca, os dedos entrelaçados em meus cabelos, puxando de leve (mais de leve do que eu gostaria), distanciou-se do beijo e, como quem não admite recusa, com a urgência de quem prende na respiração o instante seguinte, disse muito sério:

- Olha nos meus olhos.

Eu olhei.

Primeiro vi um céu que não era azul escuro, mas de um verde profundo que continha todas as estrelas, os planetas, os asteróides e os cometas, todas as constelações e os outros sistemas planetários do universo, todos visíveis a olho nu. Todos ao meu alcance.

No milésimo seguinte, vi um mundo de florestas, árvores e naves espaciais, contos de fadas, duendes, robôs e ficção científica. O que já existiu e o que ainda vai ser de uma só vez.

Por fim e muito rápido, pude ver uma casa com jardim imenso num dia de sol, uma família e os filhos que eu teria em alguma outra vida.

E então ele gozou.

segunda-feira, maio 08, 2006

(Vãs) Tentativas de compreensão do "nada"

Das palavras trocadas tardes adentro com quem está no mesmo barco:

- Não há mais nós até segunda ordem. depois da incompreensão, veio um pedido para que eu não mais a veja, procure ou atenda. não me encaixo nas necessidades dela, nos planos. acho que não me encaixo em nada, só no corpo. e esse ela pretende manter a distancia em prol de coisas mais sólidas... sei que as saudades vão vir matando em horas incertas. mas não pretendo deixar doer demais. até agora estão contidas no saber da impossibilidade, no lembra-la tão triste ultimamente

- Eu tô muito cansada dessas historias de pessoas que se amam não conseguirem ficar juntas

- Acho que é o que mais acontece ultimamente, descobrimos que o amor não é cura para tudo. amamos, mas continuamos doentes

- Sim, aprendi isso muito cedo, que o amor não é a resposta pra tudo. e deus, como eu queria que fosse

- Gostamos de planejar pela segurança que isso nos dá. mas futuro, planos, sonhos são coisas que não existem

- Eu não consigo pegar leve. fico aqui, trabalhando e chorando na frente do computador, sabendo que o que está feito é o melhor a se fazer, me doendo por tanto amor de todos os lados sendo disperdiçado

- Como ficamos tanto com os futuros e passados e tão pouco com o presente? estranho mesmo isso. mas é o que somos

- É exatamente isso. nessa história, somos uma coleção do que fomos e do que podíamos ter sido. e quando eu verbalizei isso em um "não tenho nada", acabei por assinar minha sentença

- “Não tenho nada”?

- É. numa conversa, eu disse que eu não tinha nada a não ser o meu amor, o que eu sentia por ele. que não havia passado nem futuro, só planos e abstrações. eu nunca consegui me fazer entender nesse "não tenho nada". não me referia ao que ele tinha feito por mim, às coisas das quais abrimos mão ou pelas quais lutamos juntos, contra ou a favor. não era isso

- Eu te entendi. esse “não tenho nada” foi o mesmo que eu mostrei por aqui. não encaixava com planos mais sólidos

- Aqui tudo encaixava. só não acontecia.

- Não sei o que é píor.

sábado, abril 29, 2006

The Sexy Name Decoder


Playful Ravishing Individual Skillfully Conferring Intense Loving and Lustful Affection


:)

quarta-feira, abril 26, 2006

Abstracionismos

Gostaria de finalmente compreender da forma exata – ou errada de uma vez - toda vez que você diz que me ama. Quando você diz, como se fosse uma rede para o meu salto, como quem dá segurança ao outro que escala a montanha. Como o revisor que corrige meu erro antes da impressão. Gostaria de abarcar essa compreensão como se você fosse sempre estar lá, sem nenhuma dúvida. Mas a verdade é que você nunca está.

Quem está lá é só a sombra.

Do meu amor, você é o Papai Noel, o coelho da Páscoa, o duende, a fada madrinha. Você é o sonho, o papel laminado brincando de espelho, o brilho do metal que não é ouro, a pedra falsa reluzente no anel. O anel que nunca foi dado. A promessa que nunca se cumpre, a farsa bonita, a beautiful lie. O inatingível, o tangível tão perto das mãos, mas que não alcanço nem com banquinho. A realidade virtual fora do alcance da vista, as paralelas que se encontram no horizonte mas que nunca se tocam. Todas as esperanças e expectativas e nenhuma realidade.

Teu amor é a conspiração perfeita, a encenação de tudo o que eu sempre quis, o filme do meu romance ideal, o sonho cor de rosa da menina. Tão perto, tão longe: a realidade que não consigo alcançar logo ali, atrás daquele vidro. Vitrine. Basta abrir aquela porta mas não encontro a chave, basta beber daquele líquido mágico – coma-me, beba-me - basta ficar do tamanho certo para alcançar. Mas eu nunca acerto a receita.

Não importa o quanto caminhamos juntos, o quanto planejamos, o quanto desenhamos; tudo é castelo no ar, areia e vento, névoa e sombra. Tudo são diálogos sem resposta, crases que não deveriam existir, silêncios que não deveriam constranger. Nesse vale sem rede de segurança não ecoam os gritos dos trapezistas.

Eu só queria que com cada “eu gosto de você” viessem pacotes de realidade palpável, em ações, em atitudes. O abismo que sinto quando te abraço, o frio na barriga, a náusea das desconfianças e dos medos, não, isso eu não quero mais. E eu queria que eles fossem para mais longe a cada “eu te amo”. Mas eles não vão. Os medos e as dúvidas se enrolam nas mangas, descem garganta abaixo e me saciam de maus pensamentos. Por isso ando emagrecendo, mas você não percebe.

As memórias, colcha de retalhos. Fragmentos de bons momentos costurados com linhas grossas demais. Impossível saber se a coberta será suficiente, se aquecerá a contento. Sei pregar botões, tricotar malhas e abrir casas. Dos remendos, já estou farta.

sábado, abril 22, 2006

Pseudo carta para alguém que nunca vem aqui

Se é que te interessa, não tenho nenhum orgulho do mal que te fiz. Não me vanglorio de assombrar tua vida como um passado irreal, uma morta-viva que te incomoda, nem vejo como glória o sofrimento que te impus com minhas ações – bem pensadas ou impensadas. Se é que faz diferença saber, não gosto de saber que você sofreu.

Claro, ninguém gosta de fazer ninguém sofrer. E se eu pudesse, se eu tivesse tido tempo suficiente, certamente faria desse fim algo mais digno do que foi. Mas não tive tempo. A vida não acontece em capítulos, os fatos não esperam estarmos prontos para então acontecerem. Não preciso descrever as cenas dessa ópera. Continua a haver mais drama em minha vida e na das pessoas que me cercam do que eu gostaria que houvesse. Do que eu gostaria de admitir.

Se fosse para fazer um réquiem desse amor, ele não seria triste. E tantas vezes te disse isso: nossa história não foi ruim, foi bela. E se acabou mal, seja por vileza e incompreensão de minha parte, seja por exagero ou omissão da tua, é porque acabou. Fosse para acabar bem, não terminaria.

Desconheço todas as teorias que você deve guardar sobre isso. Desconheço metade das minhas, porque se penso sobre o que aconteceu, penso hoje e atrasado. Talvez me arrependa de coisas, talvez tenha certeza de outras tantas – a verdade é que o tempo se encarrega de esmaecer as tintas e hoje os vermelhos não parecem mais tão carregados.

Ficaram muitos sorrisos, sabe? Muitos sorrisos, mais que lágrimas. Mais leveza do que mágoas. O que de mais grave me bate é a sensação recorrente que eu tinha, de estar sendo exatamente o que eu queria ser, de estar no lugar certo, na hora certa. O medo de nunca mais vir a sentir isso.

Não que você se importe com qualquer dessas palavras. Não que isso seja um mea culpa. Talvez eu seja mesmo pretensiosa de pensar que causei algum dano, alguma marca, para bom ou ruim. Mas escrever é meu meio de tanta coisa – de fuga, de drama, de ficcionar, de realizar o que não posso – que me permito essa violação e esse crime sem adicionar essas palavras ao meu rol de culpas.

Não tenho mais medo de te encontrar, não tenho mais raiva ou ressentimento pelas interpretações furiosas nos últimos palcos em que nos encontramos. Tenho hoje uma consciencia muito maior do que você é. Uma consciência inversamente proporcional a que tenho de mim: a cada momento me desconheço.

Não temo mais teu riso de escárnio ou tua espera pela vingança. Estou entregue à vida e muito pouca coisa me importa. Sei que esses sentimentos não me pertencem, como nenhum outro pertenceu ou pertencerá. Nada possuo, nem mesmo os dedos dos quais me roubam os anéis diariamente. Nem tenho impresso os álbuns de memórias. Mas levo em mim, engano ou certeza que disperdiço, a sensação de que tempo dividido foi de uma realidade tranqüila e desejada, desfrutada da melhor forma que pudemos.

Levarei as lembranças sempre comigo, embora elas não me pertençam. Ficarão na biblioteca de memórias do mundo, a quem quiser consultá-las. Se são reais, se imparciais ou não, pouco importa: seu valor é outro. Elas me ajudarão sempre a escrever uma das minhas versões da história do mundo.

sexta-feira, abril 14, 2006

Do elo

De si, sentia apenas os pulsos e os tornozelos, circundados por pulseiras de aço. Não tão apertadas que machucassem, não tão soltas que se permitissem desvencilhar. Tinham um brilho fosco, exatamente como o anel que levava no anular esquerdo. Estanho.

Sentia os cílios longos baterem contra a lente dos óculos escuros, cuja armação eventualmente servia de prateleira às lágrimas que escorriam involuntariamente. Mas só às vezes.

Podia mover-se quase livremente. Andava pelas ruas como se nada houvesse, mestre de seu próprio cativeiro, seqüestrador e seqüestrado em plena Síndrome de Estocolmo. Era isso o que o outro desejava e o que desejava do outro: a sensação ilusória de poder mover-se livremente embora estivessem fortemente atados.

Os elos das correntes, em forma de coração, ainda assim eram elos. Eles, elos. Coração engatado em coração engatado em coração engatado no pulso. No tornozelo, atrapalhando os passos. As correntes invisíveis que arrastavam eram os próprios fantasmas.

No peito, o músculo cardíaco ileso, batendo regular. O coração intacto, trancado numa cela de aço. Intocado, puro. Cinto de castidade. Engolira a chave. Nunca mais.

No exato instante em que pensava “nunca mais”, olhos fechados, sentiu um par de luvas jogar longe os óculos escuros, esbofeteando sua face, incitando ao duelo.

quarta-feira, abril 05, 2006

Easy rider

* continuação de Sem RG

Eu costumava pensar até há pouco tempo que amores de verdade duravam para sempre. Hoje sei que eternidade é qualidade de uns poucos amores, e não característica intrínseca. Ao contrário do que eu também imaginava, nem todos os amores se transformam em outro tipo de sentimento, amor de outra espécie. Atualmente, duvido até da capacidade dele se transformar no que as pessoas costumam chamar de seu avesso – o ódio.

Não me lembro de ter odiado alguém que já houvesse amado, ao menos não de forma perene – cultivar um ódio como quem cultiva ou guarda um amor. E o contrário também vale: nunca acabei por amar alguém que tivesse odiado, embora me confesse extremamente principiante nas técnicas de odiar. Estou evitando os exageros, principalmente os de emoções.

Amor acaba, sim. Bobagem achar que não. E isso, pra mim, é sempre triste. De uma tristeza infinita enquanto dura, de uma dor profunda que chega a ser física. E diferente a cada vez, exatamente como o amor se apresenta novo a cada experiência.

O amor acaba de ter uma parada cardíaca.

Hoje sonhei que passava por você de ônibus. Eu dentro de um, você em outro, nos cruzamos na canaleta do expresso. Cada um numa direção. Eu te olhei e não vi nada nem senti nada. Teus olhos vazios: sem perguntas, súplicas nem dúvidas. Você passava, eu passava, nos reconhecemos e seguimos, nenhum aceno, nem mesmo um cumprimento com a cabeça. Passou.

Um amor desses mortais pode levar tempo pra fenecer. Pode gastar tempos em cirurgias, inúmeras transfusões de sangue, sobreviver meses na UTI. E os desígnios nos são desconhecidos, não se sabe quem é que decide a vida/sobrevida de um amor, porque mesmo que racionalmente tudo se acabe, o sentimento pode ficar lá, em estado vegetativo, por tempo indeterminado. O amor é o único caso em que a morte cerebral não significa nada. E, esperando que tudo aconteça, a gente fica lá. Permanece no limbo, segurando a mão inerte ou observando pelo vidro. Caixas e caixas de kleenex.


Dentro da gente um coração que não pára, por mais que não caiba mais no peito vazio. Parece que bateram todos os órgãos num liquidificador, e a casquinha que sobra mal consegue conter o conteúdo. Alguém me anestesiou. A exaustão é tanta que já não se consegue nem chorar. Não há diálogo possível, só a espera – ou adiamento – do inevitável. Dor. De dorzinha em dorzinha, fenecer, desbotar até morrer.

Ou então um dia você acorda, olha para o lado e pensa, sem dor, só pesar: “o que é mesmo que estou fazendo aqui?”. Olha para o objeto de seu amor – no meio de um filme no cinema, durante o jantar – e subitamente o vê com outros olhos. Como apenas uma pessoa comum. E não consegue mais deixar de ver os defeitos irritantes, a mania boba ou aquela grande falha de caráter que antes estava encoberta por um véu cor de rosa. E se assusta. Como fui me enganar assim?

O amor acaba de sofrer uma segunda parada cardíaca.

Por mais que você tente recuperar o encantamento de outrora, já era, it’s gone. Já não há máscaras e fazer o balanço do “vale a pena” é inevitável, mesmo quando se sabe exatamente o resultado. E o gosto do outro, a vontade do outro, o querer do outro, sempre tão importantes, começam a entrar em conflito com o nosso próprio querer. E começa uma luta com a gente mesmo.

Massagem cardíaca, desfibriladores, epinefrina.

Já não penso mais que dar adeus a uma relação signifique a frustração de todos os planos e projetos não realizados, dos quais se tem de abrir mão. Sigo, mesmo após o fim, acreditando que todas as promessas eram verdadeiras, todos os desejos, reais, afinal. Tudo o que foi dito era realidade no momento em que as palavras foram articuladas, ainda que só em idéias e vontades. Recuso-me a pensar que o que foi dito era mentira. Prefiro acreditar na efemeridade dos sentimentos.

Porque não te amo mais nesse exato momento não significa que nunca te amei. Porque não nos casamos não significa que nossa vontade de dividir, de ter uma vida juntos pela eternidade do nosso sempre, não tenha sido real. Prefiro acreditar que nossas juras e promessas apenas tiveram seu prazo de validade expirado. Dói menos, pelo menos em mim, e me faz sentir mais livre.

Dói mais sempre pra quem fica. Quem parte fez o balanço, quem vai sabe exatamente – ou ao menos tem idéia – do que estava acontecendo e porque está indo. Quem parte já pesou e conferiu os resultados. Quem deixa já fez as malas e, por mais que doa, já está preparado.

Quem fica não sabe o que fazer. Chora comendo pastel, se descabela no ponto do ônibus, tem acessos de raiva, atira coisas pela janela, alterna drama, silêncio, gritos, compreensão resignada e inconformismo histérico. Foi pego de surpresa, todos os planos ainda nas mãos, no anular esquerdo o comprometimento único arde agora sem brilho. Todos os planos ainda por serem realizados, todos os sonhos ainda morando na cabeça. Só o objeto de seu amor não está mais lá. Como um luto de alguém que não morreu. Como pôde fazer isso comigo?

Ainda ontem minhas mãos pertenciam às suas; ainda ontem meu corpo era tua morada. Hoje, dentro de mim um deserto.

Quem vai parece saber mais de si. Quem fica se perde um pouco. Ambos saem da sala pessoas diferentes.

Sentada no banco de frente para mim, a moça no ônibus chora. Não sei se perdeu alguém, se um amor se acabou ou se cruzou com alguém na canaleta. Se deixou ou foi deixada, se perdeu ou perdeu-se. Gostaria de conseguir consola-la, mas sei que é impossível. Cada um tem seu tempo de luto. Não sei em que direção estamos indo e quero muito acreditar que isso não importa.

Pois bem, amores acabam, senhoras e senhores. E talvez isso nem sempre seja ruim.

sábado, abril 01, 2006

Quadro de recados

Lá fora, quando eu vinha chegando de ônibus, estava um céu azul belíssimo. E eu me senti um pouco menos triste, um quase quase alegre, porque talvez houvesse uma possibilidade de que eu conseguisse me descolar do que sinto e não me identificasse mais com a emoção; porque eu não chorava já havia algumas horas. O dia estava bonito e eu quase sorri pensando na possibilidade de me enganar e acreditar que talvez assim é que seja certo, que esteja certo, e que talvez eu já tenha chorado tudo.

Horas e um litro e meio de água depois, ainda sem comer, o nó na garganta veio com fúria leonina quando, ao ler os quadrinhos da Folha, me peguei repetindo um gesto muito característico teu. Um jeito de rir que não é meu, que sai abafadinho da garganta e não explode em riso, como eu faria do meu jeito. Um riso de quem acha a coisa só engraçadinha e que eu nem sei imitar voluntariamente. Uma daquelas peças que o inconsciente nos prega: o mimetismo natural que acontece entre casais que se amam.

quarta-feira, março 29, 2006

Sem RG

Quatro anos depois, ao reencontrar aquele que lhe tirou o sorriso do rosto e cujo filho abandonou em terras longínquas, não sentiu o coração disparar nem o chão tremer. A boca não secou, embora tenha pensado que estava um tanto mal vestida para a surpresa. Era uma situação trivial, almoçava acompanhada por um sujeito que pretendia (em vão) beija-la na próxima sessão de cinema, por quem não nutria sentimentos verdadeiros.

O homem-personagem. O homem do apartamento 62, que combinava as samba-canções com o lençol e mentia que jogava xadrez com peças de vidro. O cafajeste. O homem das taças de vinho de pé preto e das toalhas Tok & Stock, sentado no chão, de calça social e sem sapatos, encostado na parede do apartamento yuppie. O garoto das bússolas que não funcionavam, do pára-quedas sempre aos pés da cama – no qual ela sempre tropeçava.

Observou a ex-ameaça chegando na praça de alimentação. Trazia pela mão um exemplar de fêmea regular – apenas regular – e conservava o mesmo andar de outros tempos, quase manco; o mesmo corte de cabelo arrepiado, a mesma empáfia. A insolência tola de quem conhece pouco de si mesmo. Tentou não julgar a moça, que era bonitinha, até, e que provavelmente lidava melhor com ele, talvez por não conhece-lo tão bem.

Reparou no jeito dele se mover, se havia emagrecido ou engordado e, mais do que tudo, tentou observar sua própria reação diante de alguém por quem havia sofrido tanto. Alguém que não respeitava mapas ou horários, que deixara traumas de celular e uma insegurança que demorou a ser curada. Que a levou ao Prozac e à análise freudiana. O homem dos surtos, da taquicardia e dos frios na barriga permanentes. Que costumava despertar a vontade de sair correndo, literalmente.

Olhou para dentro de si um instante e percebeu que não sentia nada. Não sentia absolutamente nada: carinho, ternura, saudades, raiva, medo. Nunca imaginara que pudesse fazer isso com um amor que parecera tão intenso. Teria sublimado? Quantas armadilhas o inconsciente guarda. Aparentemente não sentia nada. Não faria diferença se ele viesse cumprimentar ou se fingisse que não a viu. Nada. Um nada bem grande.

Tentou ser ainda mais discreta, falar baixo, se movimentar pouco. Não queria ser percebida ou flagrada como se quisesse chamar a atenção. Preferia que ele não a visse. Será que nutriria um ódio desconhecido pelo amor que acabara? Pelo seu amor desprezado, pelo homem que não a quis o suficiente? Pela primeira vez resolveu pensar seriamente se acreditava que amores acabam.

Ou isso – amor acaba - ou foi uma obsessão daquelas bem loucas, de dar medo na Glenn Close de Atração Fatal. Pior: se estivera enganada daquela vez, então o sentimento ainda a rondava e poderia estar prestes a se repetir.

Fosse outra, talvez devesse levantar e bater na mesa, fazer escândalo: por que ela sim, e eu não? Por que nunca me assumiu, nunca mãos dadas comigo no shopping? Ela sabe que você prometeu se casar comigo daqui três anos? Ela sabe quem você é e que essa relação não vai a lugar nenhum? Ela sabe que você a trai? Ela te conhece como eu conhecia? Despejar o pote de mágoas.

Mas não era dada a barracos.

Talvez, se fosse outra, devesse ir lá se apresentar para aproveitar e analisar melhor a moça. Procurar perfil no Orkut, julgá-la não tão bonita ou averiguar a inteligência. Espezinhar a atual situação dele, que voltou a morar com a mãe; todos os trambiques que deram errado. Rir alto da inépcia dele, a falta de caráter que lhe era tão conhecida, e se congratular por ter ido embora a tempo: sabia que era chave de cadeia. Mostrar superioridade.

Não fez nada disso. Não faria sentido, não havia mais nada, nenhum sentimento. Estava vazia, então simplesmente não fez nada. Não era a mulher que interpretaria nenhum desses papéis. Tampouco era qualquer outra. Não fez nada porque não sabia mais quem era, como era ou no que havia se tornado. Não era mais mulher nenhuma.

terça-feira, março 28, 2006

Do demônio e outros amores

Aviso aos navegantes: o texto abaixo não é literatura, mas ao menos meu português é correto.

É extenuante saber que as pessoas insistem em se preocupar com problemas que não lhes concerne, não lhes dizem respeito. Falta aprender aquela liçãozinha básica de que existem dois tipos de problema: o MEU e o SEU.

Cansa minha parca beleza saber que tem gente tão pobre de espírito a ponto de se satisfazer com expectativas de vingança. Gente cujo lema de vida é aquele provérbio "vingança é um prato que se come frio" e blábláblás afins. Que passa mais tempo confabulando sobre o possível fracasso ou a desgraça alheia do que vivendo a própria vida.

Boçalidades (tem palavra mais asquerosa?). "O tempo dirá". Dirá pra quem? Pra você, que está aí no camarote, sua vida passando enquanto espera para ver a minha não dar certo? Torcendo contra? Ah, fala sério, eu vou é ser feliz. Mas isso não é algo facilmente suportável, a felicidade alheia, não é?

"O tempo é o senhor da razão", costumava argumentar um conhecido que vivia bêbado. Ninguém tem de provar nada pra ninguém, as coisas são como são, não importa o que os outros queiram e às vezes nem o que eu quero importa. As coisas são, tudo fica mais fácil com a aceitação. É um peso ser tanto incômodo (ironia, por favor). Pesa mais pra quem?

Quem gasta mais energia, afinal? Quem tem de atravessar a rua pra mudar de calçada ao me ver, quem se satisfaz com pouco esperando o mal alheio, quem vive de ilusão e torcendo pelo fracasso dos outros ou quem ta dando a cara a tapa pra vida?

Vingança é um dos sentimentos mais baixos que eu conheço. Vingança e inveja. E eu já namorei um cara invejoso e vingativo. Pode ter coisa mais mesquinha? E eu ainda achava que ele não tinha problemas sérios de caráter! Que coisa.

segunda-feira, março 20, 2006

All we need is love



Porque meu amor me ilustra de várias maneiras.
Porque esse amor é ilustrado de várias maneiras.
É pra todo mundo ver e saber - e dá pra ver de longe o que ele declara da janela do décimo primeiro andar.



Fotos by Daniel Trezub. Arte by Daniel Trezub.

terça-feira, março 14, 2006

Today is gonna be the day



Não há palavras suficientes para descrever os dias felizes. As noites perfeitas em que até o cobertor é mais fofo. Os registros fotográficos que guardamos na memória, as posições, os movimentos precisos, os sussurros ou gritos; como nos acomodamos pronto e perfeito; os encaixes. Depois, o jeito de acordar. Nos dias felizes repetimos incessantemente nosso amor, reforçamos os votos e pedidos de casamento, descobrimos mal entendidos passados e os esclarecemos. E nossos olhos brilham.

Nos dias felizes valsamos secretamente pelos corredores, ainda um dentro do outro infinitamente, indefinidamente, por mais que as horas custem a passar até o reencontro e os movimentos demorem a se repetir. Nos dias de sol com vento, as lágrimas são de felicidade e certezas e vontade de que esses momentos durem para sempre. Nesses dias não importa o que aconteça. Estamos sempre abraçados.

Ainda que pareçam frágeis, esses momentos são indestrutíveis.

quinta-feira, março 09, 2006

Nothing is gonna change my world* ou A vida de um certo cara aí

Ela chegou para mudar tudo. Toda a concepção da coisa. Tudo o que eu pensava que já estava decidido e cristalizado na minha vida. Tudo o que eu já considerava imutável. E não veio devagar. Chegou trazendo ventos e intensidades, sentimentos que estilhaçavam vidraças e gritavam decisões incertas. Sempre incertas, as decisões, sempre incertas na minha cabeça. Sempre sem saber direito o que eu estava fazendo.

Antes? Ah, antes eu tinha certezas e convicções. Eu achava que sabia que gostava de certas coisas e que tudo já estava pronto e decidido. Era cômodo, tranqüilo. Mas ela cutucava, balançava, me sorria e eu achava lindo, lindo... Ela, sempre cheia de histórias das quais eu tinha medo e ciúmes. Sempre com aventuras loucas que eu desaprovava ou que nunca sequer pensara em viver. Ela: algo que eu não poderia ter.

Não sei quando as histórias começaram a se misturar. Minha história e a dela, nossas histórias, nossa história. Suas palavras entravam por portas que eu desconhecia e me atingiam fundo no coração. Às vezes me seduzindo, às vezes me doendo, despertando um desejo de cuidar daquela fragilidade tão bem escondida. Eu a desejava, é claro, mas ia além. Devorava o que ela escrevia. Adorava sua intensidade.

Eu nunca soube direito o que fazer, só tinha certeza das coisas na minha vida quando estava fazendo errado, entende? Só sabia realmente quando não estava fazendo a minha vontade. Mas eu aceitei. Eu abri a guarda e deixei-a entrar, para bagunçar o que quisesse. Entreguei meu coração ao que viesse, às canções que ela cantava no meu ouvido com aquela voz doce, ao perfume que ficava grudado nas cobertas depois que ela saía. Ainda que eu não soubesse exatamente o que fazer. Ainda que, mesmo que.

Ela veio pra ficar. Ao menos era o que parecia. Um dia trouxe as malas, fez exigências, e eu não consegui fazer nada além de ceder. De dizer que sim. Acho que era isso mesmo que eu queria. Ela veio e ficou. Eu entendi.

Um dia aparece na sua vida alguém que chega pra mudar tudo. Não sei se na vida de todas as pessoas, não sei se sempre. Mas aconteceu na minha e só posso falar por mim. Um dia aparece alguém na sua vida pra mostrar que tudo o que você sabe está errado, e que você tem de recomeçar do zero, fazer tudo de novo diferente.

Tem quem não queira, tem quem não aceite, quem não tenha força nem coragem, e eu respeito isso. É a opção de cada um. Um dia alguém aparece na sua vida como uma segunda chance. Não sei quanto isso vai durar, não sei se vai, só sei que quero e acredito. Parece que agora, a essa altura do campeonato, eu finalmente sei de alguma coisa.

* eu realmente preciso explicar esse asterisco? ;)

P.S.: Não achei que escrever sob a perspectiva de um homem fosse tão difícil - pra escrever, para ser percebido/lido como tal. Por isso o "ela": quem escreve é alguém na primeira pessoa do singular do sexo masculino. Blé. Experimentos, ué.

terça-feira, março 07, 2006

Sobre o Oscar...

As mesmas histórias estão acontecendo o tempo todo. No meu email, no seu carro, na cama de uma terceira pessoa: alguém está amando, esquecendo, perdoando, enganando, se dedicando, escondendo, mentindo, se entregando, desejando, indo, voltando, esperando. Escrevendo. As histórias se repetem e nós nos revezamos nos poucos papéis que nos apresentam.

Se não são diferentes na vida real, quem dirá em Hollywood. Baseado na teoria dos arquétipos no inconsciente coletivo descritos por Carl Jung, Joseph Campbell escreveu O Herói de Mil Faces, livro que, por alguns meses, te faz enquadrar tudo sempre no mesmo contexto com base no herói mitológico. Cada um em seu papel: Shrek, princesa, burro, lobo mau, maçã, King Kong.

Há os que nos fazem rir, há os que fazem gozar. Há histórias que viram livros – romances bons, romances ruins, graphic novels; há as que viram papel de embrulhar peixe. Tem as cujos originais voam com o vento em direção ao lago: memórias para sempre esquecidas, jamais publicadas, perda de tempo. Há as que nos fazem chorar e até as que nos ensinam a aceitar. Não o aceitar de engolir seco, resignado, mas o aceitar de compreender o outro, mesmo que nos escape a compreensão de suas razões. Acolher nos braços sem perguntas.

No fim do ano, você aí pensando em balanços e resoluções. Não questionarei, cada um na sua e, no fim das contas, acho que balanços são válidos, Já cheguei realmente a colocar alguns no papel, contar as minhas histórias.

Contos de fada, realismo fantástico, novela mexicana, cinema mudo, não importa a definição ou o rótulo: você é um montão de histórias, são elas que constroem a sua. E exatamente por isso chega a ser curioso como tantas histórias que se repetem formem indivíduos que não aprendem, como os ratinhos de laboratório que levam choques naquelas experiências.

A história se repete. Você já viu esse filme, a piada é velha. Mas você fica, na esperança de que dessa vez ele mude no final. Até tenta resistir, agir diferente. Mas a história está lá, inexorável, e te espreita. É impressionante como num mundo com tanta gente, existam tantos querendo dirigir e tão poucos para escrever novos roteiros.

Das rimas do amor

De tristeza em tristeza
foi definhando
até morrer.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Again

Wanna be starting something...